Então querida(o), você começou um blog de moda. *pausa dramática*.
Não que a ideia seja de todo má (e não é), mas nestes tempos em que termos como jabás, avenismos e orkutizações são parte do vocabulário blogístico, e em tempos nos quais a Blogueira Shame reina (beijo titia!) – odiada por muitas, temida por muitas mais -, algumas recomendações são importantes para quem, assim como tu, te propões a compartilhar a tua opinião sobre moda na internet.
Antes de mais nada, recomendo a leitura desse texto da Lilian Pacce, texto esse que já é uma referência obrigatória sobre assunto. Muitas das coisas que eu iria te falar aqui já estão nele. O que me poupa tempo. A nós dois, aliás.

Sou de uma época que hoje parece mais longíqua que a Idade Média: Um tempo no qual quem tinha blog, seja lá sobre que tema, não era conhecido, não ganhava brindes exclusivos nem convites para eventos badalados. Faz tempo e pode ser meio inacreditável para ti, eu sei. Se eu próprio estivesse começando agora e não tivesse vivido tudo isso, eu nem acreditaria se tivessem me contado. Sem querer ser saudosista (mas já sendo) tenho saudades dessa época. Tínhamos menos glamour, é verdade, mas éramos mais criativos. E sobretudo mais livres.
Falo isso principalmente devido a um vírus que se alastrou na blogosfera de moda brasileira, neutralizando a criatividade e o diferente e tornando tudo igual: Pessoas, estilos e opiniões. Faça um teste: Veja se você encontra alguma distinção entre uma blogueira de moda que mora em Recife, uma de São Paulo e outra de Porto Alegre. Não há. Todas se vestem igual, frequentam os mesmos lugares (que só mudam de nome), falam e se comportam igual.
Quando vou a algum evento de moda estão todas elas lá, parecendo filhas da mesma mãe e do mesmo pai. Com suas it roupas e it bags, antenadas nas trends mais quentes da temporada, bebericando sidra e comendo cupcakes como se não houvesse amanhã. Não que tenha problema em querer ser igual a todo mundo, mas realmente acho triste que muitas meninas (e meninos também) abdiquem do poder de criar para si uma imagem e um estilo único, justamente numa época como a nossa, (talvez a única na história da moda) na qual a liberdade para escolher o seu estilo é dada as pessoas, e não a um estilista ou a uma marca.
Ou mais triste ainda: que para passar por antenados, vivam de roubar o lifestyle alheio, vivendo num mundo de fantasia com uma vida que está longe de representar quem eles são. Triste, muito triste, pois como bem disse a Danuza Leão, fazer cara de rica cansa. E envelhece.
Me preocupa também porque toda essa pasteurização acaba se refletindo nos blogs e na forma como se fala sobre moda na internet. Já reparou como os mesmos 5 ou 6 blogs estão listados em milhões de outros como “fontes de inspiração” ou “leitura obrigatória”? Não que eles não representem de fato uma parcela da população brasileira, mas para mim é difícil de acreditar que num país como o nosso, onde existem, entre as regiões, tantas diferenças sociais e culturais, dentre muitas outras, que só meia dúzia de blogs gerem tamanha identificação com meninas que vivem muitas vezes em realidades tão diferentes umas das outras.
O que me parece mesmo é que elas não se identificam como universo retratado nesses blogs, mas sim que desejam, muitas vezes a todo custo, se identificar. E entre essas duas coisas há uma diferença enorme.

Particularmente morro de vergonha alheia, depois de encontrar com as minhas colegas (e quando falo colegas não quero dizer só pessoas próximas, mas todas que compartilham comigo a mesma função na web, independente de onde estejam no país) em um desfile ou em eventos de moda de moda em geral, quando vou ler o post de “cobertura” sobre o evento ou desfile e vejo que no final das contas, tudo o que a criatura tem para dizer é que “fulana tava um bapho com aquele look” ou que “usaria tudo” e “tinha um vestido/colar/sapato *insira alguma coisa aqui nesse espaço* deuso na passarela”. Morro de preguiça de textos assim, ocos, banais, que não acrescentam nada a coisa nenhuma. E o que dizer então de expressões como “o blog amou”, que de tão batidas já perderam o sentido?
E basta uma visita a maioria dos blogs de moda do nosso país, sejam eles famosos ou anônimos, relativamente antigos ou recentes para ver que a maioria dos posts são exatamente assim. Não que falar sobre assuntos que alguns consideram fúteis seja ruim, não é. Não que fazer o tal do “look do dia” seja péssimo. Também não é, muito pelo contrário. Aliás, sobre esse assunto, te recomendo a leitura desse ótimo texto do Pimenta no teu … é refresco, que expõe a minha exata opinião sobre esse assunto. Poupemos tempo.


Falo isso porque nesses quase cinco anos de blog, já vi muita coisa bizarra acontecer. Coisas que só acredito porque vi com os meus próprios olhos, olhinhos esses que a terra NUNCA há de comer, já que depois de morto vou ser mumificado e exposto a visitação pública em um esquife de cristal. #alouca.

Coisas bizarras como blogueira que cultua um padrão de beleza doentio e que vende isso como sinônimo de sucesso para quem lê o seu blog. Padrão esse cujo um dos símbolos é uma mulher que ela mesma diz que não está satisfeita com a própria aparência. Pessoas que se aproximam de outras por interesse, para ganhar um convite para um evento ou pegar carona no sucesso dos outros. Gente que vai embora de evento de moda magoada porque “ninguém tirou foto do meu look” (pois é, isso existe). Pessoas das quais nem devemos perder tempo falando aqui, e que no mais, já tratei aqui nesse texto, sobre o lado B desse mundinho.
E aqui, te peço um espaço pra contar uma história que serve muito bem para ilustrar muito do que eu quero dizer aqui. Há um tempo atrás, conheci numa faculdade de moda aqui da minha cidade uma pessoa que durante algum tempo, pensei que fosse amiga. Uma pessoa que no começo achei bem intencionada e que meio deslumbrada com essa coisa de blog de moda, me chamou para colaborar no site que ela queria criar.
Ter um site de moda de sucesso era o sonho dela (pois é, em se tratando de trabalho, alguns tem sonhos, outros tem metas bem definidas), um site esse que, como ela me disse em uma ocasião, “iria ser muito melhor e beeeem diferente de muitos blogzinhos por aí” (sic), sem refletir sobre a arrogância do que acabava de dizer.

O tempo passou e depois de muitas idas e vindas, me afastei da criatura (por motivos que não vem ao caso falar aqui) e até onde eu sei, o sonho dela ainda não se concretizou, muito pelo contrário. O referido site, até onde eu sei (não precisa dizer nomes, afinal o bom mesmo é contar o milagre e não o nome do santo), é motivo de piada para muita gente, não porque as pessoas sejam malvadas (algumas de fato são), mas por um motivo muito mais simples: O site é ruim mesmo.
As fotos são mal tiradas – pois o fato de ter uma câmera na mão, por melhor e mais cara que ela seja, não te torna necessariamente um fotógrafo, muito menos um bom fotógrafo -, os looks mostrados na seção de “street style” são em sua maioria, bregas, e os textos são mal escritos. E quando uma ou duas pessoas pensam assim, OK, são opiniões diferentes, e ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas. Mas quando são dezenas de pessoas, centenas até, que pensam a mesma coisa, tem algo errado aí.

Falo isso principalmente para te dizer que moda não se aprende em faculdade ou em cursinhos de curta duração. Em escolas você adquire conhecimentos relacionados a ela eque vão te ajudar no mercado – como desenho, modelagem, técnicas de marketing e etc -, mas coisas como bom gosto, criatividade e elegância, eu acredito que você ou já nasce com e vai aprimorando ao longo da vida, ou então só em outra encarnação, meu bem. Ces’t la vie.
Reflito sobre esses pontos e essa é a minha opinião – que você pode concordar ou não - porque penso que esse boom pelo qual o mercado de moda vem passando nos últimos anos aqui no Brasil tem consequências boas e ruins. A boa é que com mais gente interessada, o setor tende a crescer e se profissionalizar. A má é que nem todas essas pessoas que estão dispostas a trabalhar com moda estejam em sintonia com aquilo que o mercado precise de verdade.

Lembro de uma entrevista que eu fiz com o Arlindo Grund numa das edições passadas do SPFW em que ele levantou um aspecto positivo sobre essa explosão dos blogs de moda hoje no Brasil: Quanto mais gente falando de moda e discutindo sobre esse assunto, mais os profissionais do setor – estilistas, publicitários, produtores e jornalistas - são obrigados a propor coisas novas e relevantes. Concordo com ele, mas a outra face da moeda é a banalização de “falar sobre moda”, que hoje está mais evidente do que nunca.
Você que está começando agora não tem nenhuma desilusão, já eu tenho muitas quando o assunto é blog de moda. Nesses poucos anos acompanhando a blogosfera fashion tupiniquim, já tive blogs dos quais eu era fã, que lia todo dia e que simplesmente hoje eu não acesso mais. E um dos motivos para isso é que eu, – assim como minha gente pelos comentários que eu vejo em fóruns de discussão e redes sociais – não consegue mais diferenciar jabá e publicidade, de conteúdo livre. Isso porque em muitos casos, a própria pessoa que escreve não faz questão de marcar essa (importante) diferença.

E aqui chego em um ponto primordial da nossa conversa: Quando o dinheiro entra na jogada. Afinal, seria ótimo se você, além de adquirir um público que goste do seu blog, também ganhe dinheiro com ele não é? Não vejo nenhum problema nisso, muito pelo contrário. Quanto mais onças e peixes entrarem na tua conta do banco graças ao blog, melhor. Pois o show tem que continuar e alguém tem que pagar as faturas dos cartões de crédito. Mas a pergunta que faço é: Vale tudo mesmo nessa hora?

Também te prepares para caso o sucesso agracie o teu blog, para que você saiba lidar com as consequências que toda essa situação vai trazer de bom de ruim. Nada de afetação ou estrelismo, afinal muita gente vai estar atenta sobre cada deslize teu para mandar para a Blogueira Shame - ó medo eterno, o de ser gongado por ela. Em todo o caso, tem uma ótima oração aqui para recorrer nos momentos de desespero.


















































